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  24/11/2017 | Há 50 anos, morte de Clodimar ainda abala a cidade
 
 
 Há 50 anos, morte de Clodimar ainda abala a cidade
23 de novembro de 2017, às 02:33Luiz de Carvalho 5 Comentários
Justiça falhou e os policiais que mataram o garoto a pancadas morreram sem serem punidos

No meio da multidão havia um caixão. As centenas de pessoas que subiam a pé a Avenida Paraná pararam na linha de ferro, viraram–se para o prédio da cadeia e passaram a gritar impropérios: “assassinos!”, “covardes!” “justiça!”, “vocês vão pagar!”.

Teve quem pegasse em pedras, paus, mas ninguém atirou nada contra a Delegacia, que era o maior prédio da Avenida Paraná. Da colônia de casas dos ferroviários, no outro lado da avenida, mulheres e crianças olhavam em silêncio. Nos armazéns da AGEFF, na beira da linha do trem, homens de cabeça baixa, acompanhavam em silêncio até que decidiram também gritar por justiça.

Naquela sexta–feira de céu nublado, o grupo de pessoas que subia a única pista de terra batida da Avenida Paraná, carregando o caixão, viu o comércio dos dois lados baixar suas portas, pessoas permanecerem na frente, em silêncio, chapéu na mão, cabeça baixa. Todos estavam abismados e inconformados com o que aconteceu. Um menino, que viram crescer ali na vila, foi morto a pancadas. Mas, a revolta era ainda maior porque a barbaridade foi cometida pela polícia.

Nem as pessoas que seguiam o cortejo carregando o caixão de mão em mão, nem as que assistiam dos barrancos da rua sabiam direito o que tinha acontecido. As emissoras de rádio não tinham tocado no assunto, os dois jornais da cidade, “Folha do Norte do Paraná’ e ‘O Jornal’ só publicariam sobre o caso no dia seguinte. Televisão ainda era algo de que, por aqui, só se ouvia falar.

Uma das raras fotos de Clodimar em um documento

No caixão, o garoto Clodimar Pedrosa Lô, de 15 anos, estava desfigurado. O rosto inchado, cheio de hematomas, os olhos pareciam duas bolas de sangue arroxeadas e dava para ver que o crânio estava torto, afundado. As mãos cruzadas sobre a barriga estavam esfoladas, inchadas e roxas e diziam as pessoas que o resto do corpo estava ainda em pior estado.

O garoto tinha morrido ali mesmo, na cadeia da Avenida Paraná, durante a madrugada anterior e quem testemunhou os horrores daquela noite perdeu o sono por muito tempo.

“Era comum a gente ouvir que alguém estava apanhando da polícia, mas naquela noite foi um horror, o menino urrava e os policiais gargalhavam e gritavam como demônios”, contou o barbeiro João Gonçalo, que estava preso na época por ter se envolvido em uma briga de vizinhos. Gonçalo morreu muitos anos depois, mas nunca deixou de contar sobre a noite que o traumatizou para o resto da vida.



Sala de tortura

“A gente não via nada, mas todos os outros presos ficaram em silêncio porque entenderam que o que acontecia naquela noite era diferente”, contava. As torturas na 9ª Subdivisão de Polícia de Maringá, no cadeião da Paraná, eram comuns, principalmente depois da implantação no País do regime militar. A polícia se sentia autorizada a bater até que o preso confessasse até o que não fez e assim muitos inocentes eram condenados por assumirem crimes sob pancadas.

Na cadeia de Maringá torturadores da polícia queimavam interrogados com pontas de cigarro, afogavam em baldes com água, aplicavam choques elétricos depois de despejarem um balde d’água no corpo do preso, batiam com cinta, pedaço de pau e havia o temível pau–de–arara, uma barra de ferro que era atravessada entre os punhos amarrados e a dobra dos joelhos do torturado, colocado entre duas mesas, ficando o corpo pendurado de cabeça para baixo a alguns centímetros do chão.



Desculpa inaceitável

Os coices de mula Gerson Maia e Beneval Bezerra durante uma audiência na Justiça depois de serem presos no Maranhão

Os policiais militares Manoel Gerson Maia e Beneval Merêncio Bezerra, lotados na cadeia de Maringá, bateram tanto que o menino morreu, em uma poça de sangue. Tinha sofrido hemorragia interna e o crânio teve afundamento.

Os policiais se apavoraram. Precisavam achar uma justificativa. Colocaram o corpo em um jipe, o famoso “28”, e saíram da cidade em direção a Mandaguari. A certa altura da estrada jogaram o corpo no asfalto e ao chegarem a um médico disseram que o preso tinha pulado do carro em movimento e morrera na queda. Mas o médico não acreditou e informou as autoridades.

Depois, uma autópsia realizada no Instituto Médico Legal (IML) de Curitiba comprovou que o menino já estava morto quando foi jogado do carro.



Bode expiatório

Clodimar foi preso na noite de 23 de novembro de 1967 por ser o único funcionário trabalhando naquela noite no Palace Hotel, na Avenida Brasil, entre as avenidas Duque de Caxias e Getúlio Vargas. Já fazia um ano que ele trabalhava lá como carregador de malas, levando a bagagem dos clientes pelos três andares do prédio sem elevador.

Tarde da noite, um cliente que acabava de chegar da rua – dizem que ele estava embrigadado depois de beber com mulheres na zona do baixo meretrício – chamou o gerente, o italiano Atílio Farris, para reclamar que havia desaparecido dinheiro de seu quarto. Depois de muita discussão, Farris telefonou para a polícia. Os PMs Gerson Maia e Beneval Bezerra chegaram e após algumas conversas chegou–se à conclusão que o dinheiro só poderia ter sido pego por Clodimar, único funcionário presente àquela hora.



Santo popular

A comoção gerada na população de Maringá pela morte de Clodimar fez com que nestes 50 anos o seu túmulo seja disparadamente o mais visitado do Cemitério de Maringá. Sobre a laje há centenas de plaquetas de metal depositadas por pessoas que dizem ter recebido graças e milagres após rezarem pedindo a ajuda do menino.

De fato, a morte causou muitas mudanças. O historiador Miguel Fernando, que há mais de 10 anos pesquisa o caso e se debruçou sobre todos os documentos possíveis, diz que foi o crime dos dois policiais que levou o então governador Paulo Pimentel a reformular a Polícia Militar, trocar delegados e altas figuras do comando da PM e determinar firmeza no combate à tortura de presos.

O levantamento feito por Miguel Fernando o levou a publicar o livro “Sala dos Suplícios: Dossiê do caso Clodimar Pedrosa Lô”, cuja segunda edição, revista e ampliada, será lançada no próximo dia 30, às 19 horas, na Associação Comercial.





O tio Oésio no túmulo de Clodimar

Sem punição

Diferente do que muito se disse até agora sobre Clodimar Pedrosa Lô, ele não era um garoto que veio do Nordeste fugindo da seca e da pobreza. Embora tenha nascido no interior do Ceará, ele cresceu em Maringá. Morou na Rua Bragança, na Vila 7, estudou no então Grupo Escolar Santa Maria Goretti e desde pequeno participava dos jogos de bola nos campinhos de terra batida. Era conhecido de toda a molecada da vila.

O pai, Sebastião Pedrosa Lô, era muito conhecido porque, junto com o irmão, Oésio, tinha uma caixa d’água na Rua Oswaldo Cruz, que atendida parte da Vila 7 com água encanada de poço artesiano em uma época em que todas as casas só tinham poços caipiras.

De fato ele veio do Nordeste porque, devido a mãe estar adoentada, a família voltou para o Ceará, mas logo ele retornou para Maringá, com 13 anos, e ficou na casa do tio Oésio de Araújo Pedrosa que, além do poço, tinha uma escola de datilografia.

Quando ocorreu a tragédia, ele já trabalhava fazia um ano no Palace Hotel, onde trabalhavam também outros parentes dele.

O advogado Valdecir Guidini de Morais, hoje com 64 anos, foi amigo de infância de Clodimar e o descreve como um garoto tranquilo, que evitava confusão até nos campinhos de futebol. Os primos Amílkar Pedrosa e Shirley Pedrosa Moscardi, que viviam com ele na mesma casa, também o descrevem como brincalhão e preocupado em proteger os parentes menores.

Guidini há anos acompanha tudo o que diz respeito a seu amigo de infância. Como começou a trabalhar no Fórum ainda menino, com 16 anos, assistiu inclusive aos depoimentos dos dois policiais, que foram presos um ano depois quando se escondiam no Maranhão, do vendedor que havia denunciado o sumiço do dinheiro e depois voltou atrás, além do hoteleiro que chamou a polícia. Guidini estudou Direito, foi promotor de Justiça e permaneceu no Fórum por 37 anos, até se aposentar.

“Os policiais Gerson e Beneval foram presos preventivamente, mas em razão da demora na prestação jurisdicional, acabaram sendo beneficiados por uma ordem de Habeas Corpus e soltos, nunca mais sendo localizados. Em face da inoperância da Justiça, a família da vítima, constituída de nordestinos, tinha sede de vingança”, diz Guidini.



Justiça própria

De fato, o pai do garoto, Sebastião, voltou para Maringá e por três anos esperou a chance de estar cara a cara com um ou os dois

A família Pedrosa Lô

policiais. Queria o sangue deles. Esperou, mas nunca encontrou os assassinos fugitivos. Nem o viajante que denunciou seu filho. Mas, Atílio Farris, que após o caso havia ido para a Itália e ficado lá dois anos, voltou para Maringá e morava no Centro, na esquina da Avenida Herval com Rua Joubert Carvalho, no primeiro andar do prédio da Cunha Rego Tecidos.

Uma tarde, Sebastião permaneceu em frente ao prédio do gerente do hotel, viu–o sair e seguiu–o por um quarteirão. Na Avenida Brasil, chamou o homem pelo nome. Atílio virou e ouviu: “O senhor é o ‘seu’ Atílio?”. Ao responder que sim, foi alvejado por cinco tiros e morreu no local, a 100 metros de onde morava. O atirador permaneceu no local, esperando a polícia.

Levado a julgamento, Sebastião tinha a seu lado a opinião pública, mas a defesa não era tão fácil quanto parecia. Guidini lembra que tratava–se de réu confesso, que matou sem dar chance de defesa à vítima, o crime foi premeditado e movido por vingança. A Promotoria tinha farta documentação para acusar o réu, mas os advogados Eli Pereira Diniz, Abel Tonon e Ayres Aniceto de Andrade conseguiram convencer os jurados e seis dos sete membros do Júri absolveram o pai de Clodimar.



Personagem histórico

O menino de 15 anos que trabalhava à noite para ajudar a família – naquela época era comum menores serem empregados por empresas ou mesmo trabalhar por conta própria, como os engraxates, vendedores de coxinhas ou auxiliares de serviços mais pesados – não fazia ideia de que de uma hora para outra se tornasse um dos personagens mais comentados da história de Maringá.

“Sala dos Suplícios”, de Miguel Fernando, terá a segunda edição lançada no próximo dia 30

Além de ser lembrado pelos antigos e os fatos repassados para os mais jovens, Clodimar é personagem de um longa–metragem produzido e dirigido pelo publicitário Eliton de Oliveira, é personagem central de uma peça de teatro e do livro “Sala dos Suplícios: Dossiê do caso Clodimar Pedrosa Lô”, resultado de uma apurada investigação realizada pelo historiador Miguel Fernando, que já está na segunda edição.
 
Data: 24/11/2017 Fonte:Odiário
 
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